Chacina de Sorriso

Chacina de Sorriso: “Cena muito brutal; uma casa lavada de sangue”, relata delegado

Delegado falou sobre primeiras impressões e deu detalhes das provas que incriminaram o pedreiro

O delegado Bruno França, responsável pelo inquérito que investiga a morte de mãe e filhas na chacina de Sorriso, não tem dúvida de que os policiais que pisaram na cena do crime nunca mais serão os mesmos.

O posicionamento dos corpos das vítimas, todo mundo estuprado, esgorjado, golpe de faca no rosto. Foi uma coisa horrorosa

“Eu continuo achando que ninguém que entrou naquela casa nunca mais será a mesma pessoa. Sou delegado de homicídios, estamos acostumados a ver corpos sem vida, mas aquilo ali foge muito do razoável”, disse.

“É uma cena muito brutal, uma casa completamente lavada de sangue, o posicionamento dos corpos das vítimas, todo mundo estuprado, esgorjado, golpe de faca no rosto. Foi uma coisa horrorosa, não tem como, a cena do crime foi muito pesada”, completou.

Cleci Calvi Cardoso, de 46 anos, e suas filhas Miliane Calvi Cardoso, de 19, e duas menores de 13 e 10 anos, foram assinadas de forma cruel no último final de semanas, entre os dias 24 e 25 de novembro. Os corpos só foram localizados pela Polícia na manhã do dia 27.

O delegado conta, ainda, detalhes do processo investigativo que culminou na prisão do pedreiro Gilberto Rodrigues dos Anjos, de 32, e as provas cabais que o incriminaram.

Confira os principais trechos da entrevista.

MidiaNews – Em uma entrevista à imprensa de Sorriso, o senhor disse que ninguém de sua equipe será a mesma pessoa depois de presenciar a cena do crime. Pode explicar melhor essa declaração?

Bruno França – Eu continuo achando que ninguém que entrou naquela casa nunca mais será a mesma pessoa. Sou delegado de homicídios, estamos acostumados a ver corpos sem vida, mas aquilo ali foge muito do razoável. É uma cena muito brutal, uma casa completamente lavada de sangue. O posicionamento dos corpos das vítimas, todo mundo estuprado, esgorjado, golpe de faca no rosto. Foi uma coisa horrorosa, não tem como, a cena do crime foi muito pesada.

Pegada encontrada na cena do crime era idêntica ao chinelo do pedreiro

MidiaNews – Quando o senhor entrou no local, qual foi o primeiro pensamento?

Bruno França – A cena do crime é a parte mais importante de uma investigação de homicídio, tanto que foi ela a responsável pela identificação do autor, por causa da pegada de um chinelo. Estamos vivendo uma guerra de facções em Sorriso. Então eliminamos a possibilidade de um crime vinculado à organização criminosa. Ficou muito claro que era um crime sexual.

Existiam duas linhas de investigação, ou de um estuprador em série – como se provou ser verdadeira -, ou de um latrocínio que teria evoluído para estupro. Mas certamente o crime tinha como motivo a lascívia.

MidiaNews – Como o senhor ficou sabendo que ali nas proximidades havia um estuprador procurado pela Polícia?

Bruno França – Considerando como motivo a lascívia e que tinha uma obra na lateral cheia de homens adultos, ali foi um núcleo de suspeitos que imediatamente isolamos e começamos a checar. Cercamos todos os pedreiros da obra, colocamos dentro de um cômodo [da construção] e começamos a checar. Não saiu ninguém enquanto não checamos todo mundo, um por um.

MidiaNews – Quando foi que teve a certeza de que estava diante do assassino?

Bruno França – Quando descobriu-se que era o local do crime… É natural do ser humano, todo mundo é curioso, ir lá na beira da fita para ver o que estava acontecendo. E o suspeito não foi. Ele foi o único dentre os pedreiros que não foi. Aquilo despertou a nossa atenção.

Começamos a interrogar as pessoas, descobrimos que ele tinha mandado de prisão em aberto, mas não comunicamos pra ele [que sabiam dessa informação]. Vimos que ele estava mentindo pra gente. Então recolhemos os calçados de todos os pedreiros, mas, na verdade, queríamos mesmo era o dele. Em convicção íntima, já sabíamos que era ele. 

O calçado bateu perfeitamente com a pegada na cena do crime. Ele pisou numa poça de sangue e ficou uma impressão como se fosse impressão digital perfeita do chinelo.

A gente reparou também que ele estava machucado na cabeça, no couro cabeludo. E na mão da vítima de 19 anos tinha uma quantidade muito grande de cabelo que ela arrancou do agressor lutando. Confrontamos ele, dissemos que faríamos o exame de DNA do cabelo, avisamos que o chinelo dele tinha batido [com o decalque] e ele imediatamente confessou o crime pra gente.

Mas a certeza probatória foi na questão do couro cabeludo e do chinelo mesmo, porque não era só o mesmo modelo. Quando você pisa nas coisas, fica em pé, ele forma algumas imperfeições no solado. Até isso era compatível. O perito me disse que não havia possibilidade de não ser aquele chinelo que tinha pisado na cena do crime.

Nas imagens [feitas pela imprensa local] eu passo com o chinelo pra dentro da casa, deixo o chinelo com o perito, volto sem o chinelo e já dando voz de prisão pra ele. Ele começou a confessar o crime imediatamente. E a gente conduziu pra delegacia.

MidiaNews – O senhor acredita que ele entrou com o objetivo de estuprar a mãe e as filhas?

Bruno França – O que nós achamos, considerando o perfil de vítimas em que ele tem ‘tara”, considerando a faixa etária da vítima dele no outro estupro [em Lucas do Rio Verde], a gente acha que ele queria estuprar somente a mãe. Então achamos que ele entraria na casa, estupraria a mãe e cortaria a garganta da dela, como ele tentou fazer em Lucas, e iria embora. O problema é que a mãe lutou e acordou todo mundo dentro da casa.

Ele conta no depoimento que estava vigiando as vítimas, por isso também achamos que a vítima era a mãe, porque ela chegou de viagem naquele dia. Ele poderia ter entrado antes só com as meninas lá. Então, a mãe chegou de viagem na madrugada de sexta-feira e aí ele entra naquela noite na casa e vai direto pra cima dela, com a vítima determinada. Ele sabia o horário que as meninas iam para a escola, voltavam da escola. Era um predador sexual, um assassino em série.

E a criança de 10 anos foi a última a morrer. Ela viu, viu tudo. Ele a matou na hora de ir embora, porque ela não parava de chorar e gritar.

Mulheres da família Calvi durante passeio na praia

MidiaNews – Em algum momento, mesmo que para ludibriar a Polícia, o assassino demostrou algum arrependimento?

Bruno França – Não, nada, nada. Dava pra ver que ele estava triste por ter sido preso. A tristeza dele não era um arrependimento, ela derivava da prisão. Não demonstrou remorso.

MidiaNews – A Polícia ainda acredita que possa haver outra pessoa envolvida?

Bruno França – Não entrava na minha cabeça ele ter feito aquilo sozinho, não tinha como estuprar três pessoas sozinho. Mas ele explicou que primeiro cortou a garganta das três e, enquanto elas agonizavam e seguravam o pescoço para parar o sangramento, ele estuprou uma por uma.

Na minha convicção ele realmente fez aquilo sozinho; agora a perícia é que irá afastar qualquer dúvida. Preliminarmente os peritos também acham que ele fez sozinho, mas vamos aguardar o laudo.

MidiaNews – Alguém na vizinhança ouviu alguma coisa fora do normal?

Bruno França – Ouviu. Nós conversamos e ouviram uns gritos, mas eles tinham três cachorros que latiram muito, latiram muito alto e acabaram não conseguindo identificar o que estava acontecendo. Eu vi três cachorros na casa, dois grandes e um pequeno.

MidiaNews – Tem uma cena que chamou muito a atenção, que foi o momento em que o senhor consola um familiar das vítimas. O que passou na sua cabeça naquele momento?

Bruno França – Aquela era a irmã e tia das vítimas. Aquele momento foi quando eu comuniquei pra ela que a gente tinha prendido o autor e que ele havia confessado. Ela entrou em desespero, não sei se foi o sentimento de alívio, e começou a gritar e passar mal. E a gente abraçou ela. A investigação não é o motivo de a Polícia existir, é a atribuição legal. O motivo de a Polícia existir é ajudar a população, e a gente tenta ajudar da forma que dá.

Está todo mundo muito mal, muito abalado com a situação, a cidade de Sorriso está doente por causa disso [da tragédia]. A gente agora vai dar um pouco de espaço para a família, deixar eles lidarem com essa tragédia da melhor forma possível que eles conseguirem.

MidiaNews – Como faz para não deixar as emoções interferirem em um caso de tamanha comoção como é esse?

Bruno França – Acho que a pessoa que não se toca, não se comove com uma situação dessas, ela não serve pra ser policial, porque você tem que ter o mínimo de empatia. Agora, a gente não pode deixar que esse sentimento nos faça tomar decisões equivocadas. Eu, por exemplo, removi o autor da delegacia porque a população iria matá-lo. Não podemos deixar a raiva e o sofrimento comprometem a capacidade de decisão, até porque somos agentes públicos e a nossa vontade deriva diretamente da lei. Esse é um exercício, a gente tenta não pessoalizar, mas no fundo todo mundo está muito sentido com essa situação.

Na minha convicção ele realmente fez aquilo sozinho; agora a perícia é que irá afastar qualquer dúvida

MidiaNews – O assassino alegou que estava sob efeito de drogas. Acredita nessa versão?

Bruno França – Isso a gente não sabe, vai ter que ser analisado, mas independente dele estar sob o efeito de drogas ou não, ele estava plenamente consciente do que estava fazendo. Tanto que entrou [na casa], pulou [janela], estuprou, levou a calcinha da vítima [de 13 anos] como lembrança. Então, não tem como alegar que ele estava em estado de transe, porque as ações dele foram todas calculadas. Ele narra friamente os passos que tomou. Fala que já vinha monitorando a casa das vítimas há dias. Então, a questão da droga aí não tem nada a ver.

MidiaNews – O autor falou sobre o motivo de ter matado a terceira vítima de forma diferente das demais?

Bruno França – Ele não deu uma explicação. As três primeiras vítimas foram mortas em sequência. Então eu acho que ele já estava com a faca na mão, aí ele matou a mãe, veio uma filha para defendê-la, e ele matou a filha, veio a outra, ele matou a outra. E aí depois ele deve ter soltado a faca pra estuprar todas elas [três vítimas], e na hora de ir embora ele matou a menina estrangulada.

MidiaNews – Já se sabe se o pedreiro voltou à cena do crime depois de matar as vítimas e sair da casa?

Bruno França – Não, ele não voltou. Ninguém voltou na cena de crime. O que acontece é que ele morava do lado da cena do crime. Então, ele voltou para a obra, mas dentro da casa ele não entrou mais.

MidiaNews – Existe a possibilidade de se fazer uma reconstituição do crime?

Bruno França – Estou cogitando essa possibilidade. Conversei com alguns delegados mais experientes do que eu e não está descartada essa possibilidade. Se eu for fazer terá que ser rápido, porque tenho um prazo curto, de 10 dias, pra terminar esse inquérito.

Os exames periciais não precisam ficar prontos nesse prazo. Eles podem ser juntados ao processo depois. Por exemplo, os exames de DNA que eu mandei para Cuiabá do cabelo que estava na mão da vítima, do sangue nas roupas, eles não chegarão em dez dias, mas depois serão juntados ao processo.

MidiaNews – O indiciamento ainda não saiu. Oor quais crimes e qualificadora o senhor pretende enquadrá-lo?

Bruno França – Certamente por homicídio qualificado e estupro. Serão quatro homicídios qualificados, dois estupros consumados e um estupro de vulnerável consumado. Agora, as qualificadoras do homicídio ainda vou analisar, se tem o menosprezo na condição de mulher para ser um feminicídio ou se é um motivo torpe.

Quanto à menina que morreu por último, aí realmente não dá pra se falar em feminicídio. O crime é qualificado pelo recurso que impossibilita a defesa da vítima e pela qualificadora de queima de arquivo. [Ou seja], de cometer um crime para garantir impunidade de outro, considerando que ele matou a última porque tinha visto ele praticar os crimes e não queria ser reconhecido.

MidiaNews – Depois do crime, muitos políticos e pessoas comuns defenderam a pena de morte no Brasil. Após vivenciar um caso tão chocante, acha que a pena de morte poderia reduzir a violência no Brasil?

Bruno França – Eu sou um jurista. A nossa Constituição não permite a pena de morte, a não ser em caso de guerra declarada. Isso é uma cláusula pétrea. Então eu não vou ficar debatendo uma coisa que é juridicamente impossível de acontecer. Acho que é uma perda de tempo. O que eu posso dizer é que esse tipo de decisão a respeito da legislação tem que ser tomada em momentos de estabilidade em que você consegue pensar e raciocinar direito. Porque no momento de fúria e de sofrimento, você toma sempre as pioras decisões possíveis.

Fonte: MidiaNews

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