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Semana dos Povos Indígenas deixa legado de tolerância e respeito em São Félix do Xingu

Dias para ficar na memória e deixar um legado de tolerância, igualdade e respeito. A Semana dos Povos Indígenas chega ao fim no Dia do Índio, data emblemática que, no Brasil, marca a luta por direitos desde o ano de 1943. Arena múltipla, que proporcionou espaço para manifestações culturais, esporte, lazer e debates, o evento transformou São Félix do Xingu, a cerca de 1.050 quilômetros de Belém, na capital nacional indígena. Este ano, o evento tomou grandes proporções, com a participação de cinco mil índios de 12 etnias, de Estados como Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Tocantins e Pernambuco.

“A Semana dos Povos Indígenas ganhou vida própria. O que começou como um encontro destinado aos Kayapó se tornou um grande congraçamento de tribos e etnias. Expandimos também as discussões, trazendo grandes nomes nacionais para enriquecer as reflexões que devemos fazer na luta pelos direitos indígenas. Posso dizer que foi um sucesso”, afirma a organizadora, Viviane Cunha, destacando o apoio do Estado. “Sem o governo não existiria o evento. A segurança, a ação de cidadania, a comunicação, o esporte, as oficinas, enfim, tudo isso faz sermos hoje o que somos. Só tenho a agradecer”.

De fato, a Semana Indígena de São Félix se tornou tão representativa que hoje chama a atenção de personalidades nacionais e, também, da imprensa internacional. Estiveram na cidade, esses dias, a maior liderança do movimento no Brasil, Sônia Guajajara, e a cantora Maria Gadu, ativista da causa. Ambas participaram do principal debate promovido pelo encontro, que foi o empoderamento da mulher indígena, um tema atual que agora chega também às aldeias. “Fiquei muito emocionada de ver a força e a união dos povos aqui. Vim porque acredito que nós, enquanto artistas podemos ser o canal para levar ao maior número de pessoas a importância de defender essas populações, que são as verdadeiras donas da terra”, assinalou Gadu.

Durante vários momentos – no seminário na Câmara Municipal, concedendo entrevistas e mesmo na abertura oficial do evento –, Sônia Guajajara foi voz firme na luta pelo espaço da mulher e pelos direitos indígenas. “O desrespeito à mulher precisa acabar. Hoje desempenhamos papéis importantes dentro das aldeias e nos espaços da sociedade branca. Entre nós, a discussão é para aumentar a participação feminina na tomada de decisões. Queremos andar ao lado dos homens, porque sabemos que, juntos, somos mais fortes para brigar pelo que é nosso”, asseverou.

Tradições e luta

Na Praça do Triângulo, palco principal do evento, e em diversos outros pontos da cidade, onde ocorreram as oficinas, os serviços e o esporte, quem esteve em São Félix desde o último domingo (15) foi testemunha da força da comunidade indígena, seja na cultura, seja nos protestos ou nas discussões. As danças ancestrais, os cantos, os gritos de guerra, as vestimentas típicas enchiam os olhos e provocavam reflexões. “É para isso mesmo que a semana serve: dar espaço aos índios para mostrar que a convivência com os brancos pode ser pacífica, harmoniosa, de respeito. Esse é um dos maiores legados do evento, que abre canais para a comunidade e deixa ensinamentos àqueles que vivem na cidade”, avalia Viviane.

Uma das principais lideranças indígenas do Pará e também do Brasil, Puyr Tembé também faz um balanço positivo da semana, mas lembra que a luta pelos direitos não se esgota. “Ficamos felizes em ver que os municípios, e São Félix do Xingu em especial, estão acordando para os povos que vivem na floresta. Estamos retomando um território que sempre foi nosso. O evento aqui é múltiplo e bem-sucedido naquilo a que se propõe. Divulgar a cultura ajuda a preservar esses costumes e manter vivas as nossas tradições, especialmente em um momento de ataque aos nossos direitos, como estamos vivendo”, reforça.

A própria presença de uma mulher na principal coordenação voltada aos direitos indígenas do Estado – Puyr está à frente da Promoção e Proteção dos Direitos dos Povos Indígenas da Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh) – mostra o interesse institucional de consolidar um conjunto de políticas públicas voltadas ao segmento. “E nesse sentido, vemos que o papel da mulher indígena vem crescendo. Temos que ocupar cada vez mais espaços nas instituições, pois precisamos de pessoas que realmente representem nossos interesses. Nas aldeias, somos as que cuidam da roça, ensinam os costumes aos menores e fazem o belo artesanato, mas também estamos cada vez mais ao lado dos caciques na tomada de decisões. Em algumas comunidades Kayapó, já existem inclusive caciques mulher”, defende a líder.

Serviços

A equipe de governo também encerra nesta quinta-feira as atividades. Mais de 60 servidores de diversas áreas foram destacados para trabalhar na semana e levar atendimentos aos índios e à comunidade em geral. “Viemos com a família para as danças e os jogos, mas aproveitamos para tirar os documentos que precisamos. Tirei minha certidão de nascimento. Tudo o que precisava fazer aqui consegui. Estou muito grata”, disse Djã-am Kayapó, que foi com os familiares para o evento. Djã-am é uma das quase três mil pessoas, entre indígenas e não indígenas, que foram beneficiadas pela ação do Estado.

O coordenador do Pro Paz Cidadania, Roberto Oliveira, faz um balanço positivo dos quatro dias de ações. “Tivemos um total de 2.736 atendimentos, dos quais pelo menos dois mil eram indígenas”, informou. Participaram da ação a Policia Civil, Defensoria Pública e Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda (Seaster), num total de 20 servidores, que se revezavam nos turnos para atender a grande demanda.

Bepbjere Kayapó, intérprete voluntário, saiu de Marabá para acompanhar os jogos e ajudar os povos indígenas a se comunicarem na solicitação de documentos. “Sou Kayapó, mas falo cinco línguas, então consigo auxiliar o máximo de povos na hora de tirar documentos. Essa ação foi uma experiência importante para mim e com certeza beneficiou vários povos do município e redondezas”, disse.

Além da ação de cidadania, foram oferecidos serviços de saúde, numa parceria entre Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) e Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde. Até o começo desta quinta, a tenda localizada na Praça do Triângulo fez 250 atendimentos, para casos rápidos, como dores de cabeça, problemas de via respiratória (gripes e tosses) e dores no corpo (oriundas de esforço físico de atletas). Além disso, foram feitos 15 exames de eletrocardiograma e outros 30 testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites.

Arte e ofício

Outra ação do Estado na Semana dos Povos Indígenas foram as oficinas ofertadas pela Fundação Cultural do Pará (FCP) e pela Secretaria de Estado de Comunicação (Secom). Na Praça do Triângulo, índios aprenderam um pouco mais sobre as técnicas de desenho, serigrafia, estamparia e pintura. Na Escola Missão, cerca de 30 jovens entre 13 e 16 anos se encantaram com as técnicas de texto, fotografia e audiovisual, nos minicursos do projeto Biizu. Em cada espaço, olhares atentos e uma vontade grande de aprender e expandir horizontes.

“O papel do Biizu, enquanto projeto de comunicação comunitária, é justamente esse, de despertar novos olhares a partir das ferramentas da comunicação”, observou a coordenadora do Biizu, Érika Vilhena. Nesta quinta, os participantes do Biizu concluíram as atividades e receberam os certificados. Entre eles estava os índios Iberê Kayapó e Bepnhûm Kayapó, que fizeram as oficinas de texto e fotografia. “Foi tudo muito interessante. Fiquei feliz por ter aprendido a mexer na câmera. Isso despertou ainda mais a minha curiosidade”, disse Iberê.

A semana teve ainda uma caminhada pelas principais ruas de São Félix, na luta por direitos dos povos indígenas, debate sobre a gestão de território, disputas de futebol, vôlei, cabo de guerra e arco e flecha, e o concurso que elegeu a beleza das aldeias – além da apresentação de danças e cantos tradicionais na Praça do Triângulo. No último dia, com a programação livre, os índios aproveitaram para circular pela cidade. Depois de ganhar algum dinheiro vendendo artesanato – as belas e coloridas peças, entre brincos, pulseiras, colares e adereços para a cabeça –, eles foram ao comércio e compraram roupas e outros utensílios, movimentando a economia local. É hora de dizer até logo aos irmãos. A caminhada segue com força, beleza e resistência.

Texto: Luiz Carlos Santos/Agência Pará

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